segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ser ou não ser?

Imagem: Magritte


Em "A perfídia das imagens", René Magritte fez o desenho de um cachimbo e escreveu embaixo: "Isto não é um cachimbo". De fato, é a imagem de um. Mas se as aparências enganam, devemos duvidar de tudo?

Nesses tempos querendo ficar banais de “goleiros Brunos”, do que é que você anda duvidando? Do seu vizinho? Afinal ele pode ser um assassino BTK disfarçado. Sei qual personagem é o meu e das coisas chatas que posso esperar dele. Também, se olhar de outra forma, sei de dificuldades que são carregadas todos os dias. Não, ele não passou a ser uma pessoa legal, mas é uma nova perspectiva.

Vai ver que é por isso, pelo bombardeio de informações duras e cruéis a todo instante, que ficamos tão abalados quando de um gesto melhor, mais amoroso. Muitas vezes procuramos o real significado por trás das coisas. Herança da Filosofia, da Psicanálise que nos legou o inconsciente – como a gente vivia antes dele, hein? -, corremos o risco de transformar uma ferramenta numa arma, de modo a ficarmos bem mais primitivos do que nossos ancestrais das primeiras eras. E será que somos capazes de duvidar de nós em escolhas, caminhos e ações? Ou o legado que insistiremos em deixar será o do “cada um com seus problemas”? Vamos manter a ilusão de que as coisas só são e acontecem com os outros, de que não temos responsabilidade em nenhum evento? Porque responsabilidade vai além de trabalhar, pagar as contas, criar os filhos. Significa estar em condições de responder e justificar as razões pelos atos “cometidos”.

Nosso comportamento não pode ser separado da ética, pois que tal reflexão nos leva à prática do amor. Longe das proibições e interdições de que a moral propõe, seu verdadeiro exercício está não em agir de qualquer jeito, mas de forma ordenada, generosa. Não estou dizendo que você não possa ter seus acessos de “porra-louquice”, apenas que seja possível a promoção da pessoa e os direitos do outro ao invés de simplesmente espezinhá-los.

Mais do que fazer o bem a outrem, consiste em mostrar em nós e através de nós o aprendizado recebido. Diante da paciência em todos os momentos da vida, da tolerância para com as faltas alheias, o silêncio ante uma ofensa recebida, o que prefere que fale por você? Devemos assumir que as aparências enganam ou que na verdade, nos enganamos a respeito do real significado das coisas?

Em última instância, ética significa morada, lugar onde nos sentimos acolhidos e abrigados. É a partir daí que o espaço do mundo se torna habitável. Enquanto intervalo humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído. É a parte que cabe a cada um; e sobre isso, não podem pairar dúvidas...

5 comentários:

Insanium Delirium disse...

Excelente texto! Me fez lembrar um pouco de Jean Paul Sartre, que fala sobre que nós somos responsáveis por todos os nossos atos e portanto, tbm pelo mundo.
Para bens pelo blog!
http://artegrotesca.blogspot.com

Anônimo disse...

Chega de tanta notícia cruel, tanta notícia sanguinária. É hora de reaprendermos o bem.
Rosângela

Chris Sevla disse...

É... "O ser e o nada"...

Alguém tem quer se responsabilizar por alguma coisa, não é? E isso não tem nada a ver com "quem vai levar a culpa".

Beijo e obrigada!

Chris Sevla disse...

Pois, é, Rosângela.

Concordo com você.

Um beijo!

Camila disse...

O resgate do jogo do contente?

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