quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Nine

Com mais de um ano de atraso, assisti a "Nine", de Rob Marshall.

Baseado e/ou homenageando "8 1/2" de Federico Fellini, o filme conta a história do diretor Guido Contini, que enfrenta uma crise de meia idade que sufoca sua criatividade, o que o força a se equilibrar entre a conclusão de sua película mais recente e às numerosas mulheres formativas na sua vida, incluindo a esposa, a amante, a musa-estrela de cinema, a confidente-figurinista, uma jornalista de moda, a prostituta da sua infância e - claro, como não? -, sua mãe.

Corajoso fazer este tipo de filme numa época em que os games imperam. Provável que quem não tenha a mínima referência do "Maestro", estranhe; porque eu tenho e achei que ele demorou um pouco a engrenar.

Mas o que me chamou mais a atenção - depois de Daniel Day-Lewis no papel principal, que é um verdadeiro B surdo de ator, nunca vi isso!!!! -, é como a sinopse se aplica à obra:

Paixão, fantasia, desejo, amor, arte, estilo, desilusões, sonhos – a vida sempre foi um grande circo para o cineasta de renome internacional da década de 60... até que ele se torna a sua própria vítima (...).

Ela fala do processo da mente criativa de forma brilhante e, de novo, bem felliniana. O que dá a dica de que, se você se apaixonar por um artista, ok, é normal e esperado; mas se resolver levar uma vida a dois com ele, é melhor pensar três vezes antes, quando não tiver de pensar quatro, cinco ou nove...

Os gênios, em certa medida, não podem ser domados, mas em muito são aliciados por aqueles que são mais medíocres - na acepção da palavra -, já que é o mais perto que chegarão deste tipo de talento. É uma bajulação que gera empregos e dinheiro, como fica tão desconcertantemente claro em "This is it", último registro de Michael Jackson.

O protagonista do drama só começa a mudar quando encontra no caminho mulheres que se recusam a entrar no picadeiro.

Nicole Kidman, a estrela mor, faz uma cena emblemática, quando sai do pedestal que ele criou para ela, se despe da personagem e se apresenta, ao diretor, como realmente é. Numa outra cena, é a mulher dele, interpretada por Marion Cottilard, que abrindo mão das ilusões e descendo do pedestal que ela mesma criou, mostra ao diretor, finalmente o homem que ele realmente é. E as duas fazem isso justamente por amor.

Quantas pessoas, em maior ou menor proporção, adulam você? E o quanto você se alimenta disso para sobreviver? Com que frequência você mesmo sobe e desce de pedestais para manter um amor, uma relação qualquer ou nem chegar perto de ambos?

Porque a fantasia é sempre mais interessante e, sobre isso, não há muita discussão. Estar com alguém que se mostre e lhe mostre com todas as forças quem você é, de fato é um desafio. Se bom ou mal, depende de como se resolva encarar a questão.

Paixão, fantasia, desejo, amor, arte, estilo, desilusões, sonhos...

Mas vale a pena pensar que a melhor criação - assim como a do diretor - se dá quando você resolve dirigir o circo e colocar as coisas em seu devido lugar: as musas nos pedestais e as referências no colo.

Porque a pessoa de seus sonhos, aquela real, nem sempre entra pela porta mais iluminada.

 

Imagem: Google

3 comentários:

Anônimo disse...

Lindo texto, Chris!
Com o domínio de sempre!

Hugh

Anônimo disse...

Lindo e poético, como sempre...
Amanda

Anônimo disse...

Fiquei com vontade de ver o filme.
EM

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banheiro feminino. Design by Exotic Mommie. Illustraion By DaPino