Sei que faz pouco tempo que falei de um filme, mas espero que ao me lerem entendam a premência do assunto. Assim sendo, apresento-lhes "Cisne Negro".Sessão lotada - deve rolar um Oscar -, dessa vez sem japonesa rindo, embora eu tenha gargalhado no meio da crise da protagonista devido ao comentário que ouvi: “Mas que merda de filme é esse?”. Não, a pessoa não estava achando o filme ruim; estava era angustiada.
Versão modificada do original, conta a história de Nina (Natalie Portman), uma bailarina que vive para os palcos. Extremamente dedicada, ela é indicada para o papel principal na peça "O lago dos cisnes", mas sua obsessão pelo papel - ou pela perfeição - faz com que ela se sinta ameaçada quando uma nova bailarina, descontraida, que chama a atenção por onde passa, isto é, o seu oposto, se junta à companhia de dança.
Não é pra ver como "Sessão da Tarde", descanso e afins. Ninguém conseguiria. Ele já arrepia na abertura – que lembrou a versão do Trockadero e o final de "Billy Elliot" -.
O que torna o filme difícil é que ele é praticamente todo simbólico, algo que está em falta na personagem principal e deflagra o drama. E querendo ou não, depois de deitar a cabeça no travesseiro, seu ser entrará em ebulição, buscará nomes, tentando fazer as coisas se assentarem. Ele incomoda pra burro. Do ponto de vista da história, é previsível e há pistas logo no começo; mas é a ebulição que chama a atenção.
“Contradições internas de nossa subjetividade”, “a dificuldade de ser um ou mais”, foram algumas das análises sobre o filme; mas quando leio o que Poe disse, penso que internamente não há nada de contraditório:
Quero falar de sua mania de negar o que é e de explicar o que não é.
Segundo Lacan – parlo male -, a linguagem se interpõe entre o sujeito e seus desejos, desnaturaliza-o e cria o que é subjetivo. Nunca mais chegaremos ao âmago da questão, o que não nos impedirá de continuar tentando. As pessoas do filme, a menina da platéia, eu, inclusive quando digito, você ao se calar...
Ensaiei pra fazer esta postagem, pois além de estar, até então, “desamparada” pelo romance que estou escrevendo e, do perfeccionismo que habita meu ser – não é só Nina que sente isso, mas não fui dominada pelo lado negro da força -, quando insiro a linguagem, também me distancio do meu próprio desejo. Viu? Nunca mais julgue um escritor...
E não culpe sua professora do primário, sua mãe, nem Lacan ou muito menos o balé – todo o mundo sabe que bailarinas são tudo, menos boazinhas -, porque são essas coisas que nos tornam humanos, mesmo. É isso que nos coloca no mundo; e cobra um preço, embora possa ser negociado.
É provável que passemos a vida nos equilibrando entre as tentativas de definir o que somos ou não, mas é no turbilhão que isso provoca que está o terreno fértil de todas as coisas.
Como eu disse, o filme incomoda – já! – pra porra! Se não quer ser incomodado, vá ver a versão da Barbie. Porque este é um filme de horror, com direito a pulos na poltrona. O que se passa com a protagonista tem nome e codificação, mas é o horror interno, o sobrenatural em nós que assusta.
Assim como a personagem de Natalie Portman, há em cada um algo que quer nascer, existir e não pode ser ignorado, seja qual for a sua arte. Porque para o bem e para o mal, é nesse embate que a vida acontece. E talvez seja essa a grande merda: a que incomoda por motivos óbvios, mas que também pode servir de adubo.
Imagem:Google



6 comentários:
Filme de horror? Achei tão sem sal e óbvio...
Ah, Camila; mas é que você sabe o caminho das pedras... =)
Hahahahahahaha!!! Caminho das pedras ou das pedradas? Eu me senti aliviada quando ela descasca o dedo como que tira o cabelo da banana...
Chris, a Clarice Lispector diz que "Não é com bons sentimentos que se faz literatura: a vida também não", portanto a arte em geral. É como vc diz: não esperem q uma bailareina seja boazinha. Somos todos compostos de nossos narcisismos, egoísmos e outros 'ismos' que nos tornam humanos em todas as nossas formas de ser.
Belo blog, ótima postagem. Quando puder visite o meu:veredaspulsionais.blogspot.com
Abçs
Claro que sim. Como eu disse, você sabe o caminho ou as pedras.
Mas o alívio e a estranheza são parceiros, apesar do espaço que ocupam e a forma como se expressam em cada um, variar.
Oi, Carlos!
Obrigada pela visita e pelos comentários.
Já visitei seu blog. Parabéns!
Lembro-me que trabalhei à beça com literatura e cinema na faculdade, chegando mesmo a atuar - não necessariamente no sentido freudiano do termo -; me dizia que ficaria feliz se ganhasse só pra analisar as obras à luz da Psicanálise.
Mas aí eu não coube em mim e saí escritora...
Beijo grande!
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