domingo, 22 de novembro de 2009

Identidade secreta


Assitindo a um programa sobre o Halloween em Nova York, o dono da loja de fantasias mais frequentada da cidade, justificou o movimento da casa pelo fato deste ser o único dia onde as pessoas podiam se expressar livremente, serem elas mesmas.

No caso, o ser humano se resumia à cinco Chapolins Colorados em plena Times Square.

Sempre acho que a deturpação da teoria repressora da sociedade virou desculpa para toda e qualquer falta de educação. Porque eis o que anda dando audiência:

  • Geisy - agora na versão mega-hair - em todos os programas de TV - e futuramente no Carnaval -, inclusive no de Ratinho, no quadro "Em quem você atira o sapato" ou isso, uma variação barraqueira do "Pra quem você tira o chapéu";
  • o fiasco do "Palerma" Italia contra o Grêmio nos tapas trocados entre Maurício e Obina, cujo presidente decretou a expulsão do jogadores, do Clube, para tentar compensar as bobagens anteriores;
  • o garoto baleado que lutou silenciosamente por sua vida entre as transferências de três hospitais que não tinham condições de atendê-lo, para morrer diante de duas propagandas eleitorais: segurança e saúde pública excelentes;
  • um bando de colegas que riu até não poder mais enquanto filmavam a briga de duas estudantes, que só terminou quando uma delas tombou desmaiada...


Diante disso, sermos Chapolim Colorado talvez seja lucro!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A chama



Tenho alma de anarquista
fogos de artifício, pólvora, paixões
você não me conhece
Trago em mim a chama
o perigo, o dragão
trago o que mina, o que explode
a grande subversão

Dentro de mim o que não se doma
que ninguém detém, que nada assusta
o dom
a grande arte da fúria
a fera da sedução

Nisto consiste meu crime
e é o melhor de mim
violenta ternura
força que se irradia e expande feito um gás
que respiramos
e que torna o que fazemos
maior do que o que somos.

(Bruna Lombardi)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Apagão 2009: EU FUI!!!!!!!!!!!!!!

E deu blecaute (blackout é muito forçado?) geral! Praticamente.



Aniversário com escuridão poderia ser uma péssima, mas à luz de vinte mil velas - espalhadas pela casa, não em cima do bolo, tá? - pode abrir o portal de alguma outra dimensão.

Lembro que no outro apagão estava vendo um filme com Keanu Reeves, que tinha algo com física nuclear. Na hora em que ele abaixou a alavanca mais perigosa da história, as luzes pifaram. Rolaram todas as piadinhas possíveis sobre a coincidência.

Dessa vez eu estava assistindo a "O encantador de cães".

Para não perder a oportunidade e quase parafraseando o twitter, o que é que você estava fazendo na hora da pane?

sábado, 31 de outubro de 2009

Dia das Bruxas


Para o dia de hoje, que também é o do Saci, vieram me perguntar se não ia escrever alguma coisa, pois ao que tudo indica, figuro entre os autores de terror.

Já contei uma boa história no post sobre Sexta-feira 13, não vou te convidar para um passeio em Salem, mas vou deixar dicas para preencher seu espaço; se bem que por mais maratona que se faça, é provável que você utilize o final de semana, o feriado e os dias seguintes.

De cara, recomendo fortemente a leitura do "Território V", que reúne excelentes contos de terror - e não por acaso, tem texto meu ;-P .

Segue a lista de filmes que você deve ver, para dizer o mínimo. Apreciador do gênero que se preze tem que trilhar este caminho, mesmo em ordem alfabética. Coloquei os que receberam classificação máxima, isto é, 5 estrelas, só para encurtar.


  1. O bebê de Rosemary (Rosemary´s baby, 1968) - estréia de Roman Polanski no cinema americano, que levou à perfeição a técnica de confundir alucinação com realidade. Sempre imitado, nunca igualado.
  2. As bruxas de Eastwick (The witches of Eastwick, 1987) - com elenco impecável, direção inteligente e cena de balões cantada por Luciano Pavarotti.
  3. Carrie, a estranha (Carrie, 1976) - não desista antes da sequência final, que também virou escola. 
  4. Drácula (Dracula, 1931) - famoso pela interpretação de Bela Lugosi, cujo desempenho já havia sido consagrado nos palcos da Broadway; atenção mesmo aos olhos do moço... 
  5. O exorcista (The exorcist, 1973) - apesar de já muito copiado, este foi um marco no cinema de horror; tanto que demorei a "destraumatizar". 
  6. Gremlins 1 e 2 (idem, 1984) - idéias simples e síntese de todo o gênero, com citações de Pernalonga à E.T., além da musiquinha que simplesmente gruda. 
  7. A hora do espanto (Fright night, 1985) - boa mistura de suspense, humor negro, efeitos especiais e um vampiro que todas as mulheres entregam o pescoço antes mesmo dele pedir. O mocinho de "Crepúsculo" tem MUUUITO o que aprender! 
  8. O iluminado (The shinning, 1980) - a soma perfeita = Stephen King + Stanley Kubrick + Jack Nicholson! Atenção para as gêmeas malditas e as expessões e maneirismos de Nicholson, que começaram ali e perduram até hoje. 
  9. Um lobisomem americano em Londres (An American werewolf in London, 1981) - comoção, senso de humor, imagem refinada e as impagáveis seqüências na sala de cinema. 
  10. Poltergeist - o fenômeno (Poltergeist, 1982) - filme que modernizou o gênero e que minha vizinha contou como se fosse sua própria história - perceba que tenho vizinhos interessantes... -, além de toda a lenda que ronda sua realização por conta da morte do elenco.
E como uma coisa não elimina a outra, você também pode curtir alguma festa à fantasia, mesmo que seja na escola de inglês.

Ainda não foi dessa vez a foto de diabinha, mas torço para passar "O estranho mundo de Jack"...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Parabéns, Sr. Presidente


foto: alternatehistory.com

Estamos comemorando 40 anos do lançamento de Easy Rider. Quem "estamos", pelo menos os cinéfilos de plantão, já que se inaugurou a estrada como personagem principal de um filme, o que possibilitou realizações como Paris, Texas e Thelma & Louise.

Traduzido como "Sem destino", este seria o título ideal para definir os últimos acontecimentos. De Maitê Proença cuspindo num patrimônio público português, passando por alunos que agridem professores, aprovação do Ato Médico, à violência no Rio de Janeiro e abandono de um civil recém-assaltado por bandidos, deixado para morrer, que foi - ao que tudo indica - novamente assaltado por policiais, que também o deixaram morrer - o que foi anunciado no programa de Hebe Camargo da maneira sorridente que é tão característica da apresentadora. A coordenadora do Afroreggae entrando com os olhos marejados e a outra pronta para dizer "Mas espere! Não é só isso!..." -.

Nem sei dizer se as coisas um dia tiveram rumo, mas com certeza tiveram outros, diferentes. Assistindo à Crash - que junto com Boys in the hood e Sarafina, fecham o ciclo -, voltei a pensar no tamanho da encrenca.

Entendi o o contexto do Presidente falando do provável acordo entre Jesus e Judas, porém faltou o detalhe mais importante. Cristo nunca fez alianças com fariseus, saduceus, publicanos. Antes, ele interrompeu estas ligações, este modo de se relacionar. E tal escolha cobrou o preço de sua vida. Porque se deixarmos passar esta declaração, então também temos de relevar a do "estupra, mas não mata".

O saldo é que não há contexto provável sugerido por Lula, posto que a escolha de Jesus tornou isso impossível; o que por fim, nos legou a ausência de necessidade de morrermos por causa dos outros. E no entanto, continuamos inventando novas formas de assassinato.

Com a leitura mais bizarra já inventada da Teoria da Relatividade, criamos o Relativismo Moral. Como pergunta o refrão de uma música do Rosa de Saron, "quem de nós/vai dizer a verdade/custe o que custar/não vai mentir"? Nos expandimos e contraimos demais, gozamos com alarde ou na surdina, mas estamos sempre em cima do muro. Não nos comprometemos com nada, nem mesmo ou muito menos com o Amor. O problema nunca é meu; no máximo, do vizinho. E se é do vizinho, logicamente que não me diz respeito, já que o meu próximo ocupa o espaço do espelho.

Independente da crença de cada um, torço e ajo para que o "faço aos outros antes que façam comigo" se trasnforme em "ama o próximo como a ti mesmo". Se tivermos que multiplicar alguma coisa, que seja pão ao invés de guerras.

Aperte o play.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Dia do Poeta



Embora o mês de outubro
seja fértil
em datas comemorativas,
só quero mesmo,
é deixar o registro
de quem admiro



Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Florbela Espanca)



Imagem: clique para fazer mais rimas...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Hoje é Dia do Professor






Lembrei-me das festas e daqueles desenhos mimeografados horríveis que fazia na escola e, da professora – que na verdade era “tia” – recebendo-os, com um sorriso na frente de muito cansaço. Sou a favor de todo profissional ganhar folga para a comemoração de sua categoria – parece até propaganda de carro, “o maior porta-malas da categoria”, o que poderia bem ser eufemismo para a classe a-ssalariada em questão... -.

Mas neste lugar longínquo onde me encontro, só fiquei sabendo da data porque a folhinha me contou; e que também é dia da Normalista.

Quando se relacionava com dignidade, professores eram chamados “mestres”.

No Jardim de Infância, tive uma lancheira que ficava pendurada no gancho da parede, com a figurinha da Naná, a babá de “Os 101 Dálmatas”. E ainda massinhas de modelar que não podiam ser misturadas e fila no recreio, para comprar um guaraná Caçulinha e uma Bandinha de uva, que era o nome da bala. O da tia, era Maria Lúcia. Depois veio o Pré, com a tia Márcia, que saiu de olhos fechados na foto de formatura.

No 1º ano, já abandonado o título anterior, teve a D. Soraia, que adorava jogar apagador nos alunos - e que tempos depois, me deixou chocada ao vê-la de cabelos brancos -. Na 2ª série foi a D. Helena, na 3ª, a D. Galvão – que criava pombos – e na 4ª, a D. Helena de novo. Algumas vezes apareciam as professoras substitutas mais legais do mundo, que eram D. Sônia e Vera Lúcia – tatuada – . D. Regina, foi minha professora durante um dia que a minha mesmo, havia faltado e a escola decidiu dividir a turma para não mandar ninguém de volta para casa. Fiquei encantada com a maciez da pele dela quando encostei sem querer em seu braço; e também foi a primeira vez que vi cabelo com reflexo!!!

No ginásio, com aquela infinidade de professores, que já não eram mais “donos” de nada, Escudeiro, de Matemática - que cuspiu no giz -, Ione, que era uma fera e dava aula de Ciências, Márcia, de Geografia - que tinha o tamanho da circunferência da Terra em chatice -, Paola, de História - que foi a mesma em todos os anos, sem falhar -, “Dona Keiko”, que ensinou Geopolítica - e me abriu ao mundo dos colcoses e sovcoses - e, as de Português, Leida – que fazia cada aviãozinho de papel e que, claro, a gente chamava de Peida – e Regina - que me fez decorar todas as preposições: a/ante/após/até/com/contra... –.

No Colegial, Ferraboli, tutor de várias matérias em Patologia Clínica e, Arlete, de Literatura – quando surgiu a dúvida entre fazer Letras ou Medicina, cuja freqüência você já percebeu como eu resolvi, né? -.

No Cursinho, o professor de Literatura, que parecia o Gabriel Byrne, muito gripado. Na Faculdade, Pedro, de TTP - que me deixava babando com sua inteligência -, Volpi de Português - que me apresentou Ubaldo e discutiu Clarice Lispector comigo -, Celina – que me mostrou mais de Freud -, Raphael e Corinna, de TC – adoráveis! -, Saadeh, de PSP – por quem babo até hoje -, Verônica, de API – com quem trabalhei - e Heloísa, de PH – que adorava ver o povo angustiado -.

Nas “póses”, Latife – que misturava Asterix com Rorschach -, Julieta – que misturava Psicanálise com fofoca -, Kátia – que sabia de Neuro como ninguém -, Carla – a Super-Visora -, Pe. Donizete – que brincava de Literatura e Teologia -, Matthias – o homem da “cachaça” -...

Isso, formalmente falando.

Porque teve também o médico obstetra que me deu o primeiro tapa da vida, me concedendo o primeiro choro; a enfermeira que provavelmente enfiou aquele tubo para sugar o mecônio, o que propiciou a primeira chance de me enfiarem algo goela abaixo.

A irmã que perdia o fôlego quando brigava, os quatro primos que eu mais amava e a prima besta que é besta até hoje; a tia que me ensinou Gibran, etiqueta e como eu não queria ser; os amigos e os amores que vieram e ficaram ou se foram. As pessoas que passaram tempo suficiente para deixar alguma coisa. Meus cachorros. Sirley, que me iniciou em Lacan. A tia da catequese, que mostrou mais do Mestre, coisa que comecei a aprender com meus pais, que são anteriores e posteriores à existência, tanto deles quanto minha, já que são a própria eternidade...

"Então, um professor disse: ‘Fala-nos do Ensino’. E ele disse:

Nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento.

O mestre que caminha à sombra do templo, rodeado de discípulos, não dá de sua sabedoria, mas sim de sua fé e de sua ternura.

Se ele for verdadeiramente sábio, não vos convidará a entrar na mansão de seu saber, mas antes vos conduzirá ao limiar de vossa própria mente.

O astrônomo poderá falar-vos de sua compreensão do espaço, mas não vos poderá dar sua compreensão.

O músico poderá cantar para vós o ritmo que existe em todo o universo, mas não vos poderá dar o ouvido que capta a melodia, nem a voz que a repete.

E o versado na ciência dos números poderá falar-vos do mundo dos pesos e das medidas, mas não vos poderá levar até lá,

Porque a visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.

E assim como cada um de vós se mantém só no conhecimento de Deus, assim cada um de vós deve ter sua própria compreensão de Deus e sua própria interpretação das coisas da terra."

(Gibran, O Profeta)

Imagens: 65anosdecinema - "To sir with love"; em tempo, acho que atualmente os professores estão impedidos de passar para a segunda metade do filme...